Crítica XXI

Portugal é há quase meio século governado pelas esquerdas. Se estendermos a ideia de poder ao campo cultural, podemos dizer que esse domínio é até anterior à Revolução e permanece mesmo quando as direitas governam. 

Disto não resulta apenas que as direitas e o seu pensamento sejam mal conhecidos; resulta uma atmosfera cultural e mediática acomodada e maniqueísta sem espaço para a interrogação crítica. 

Crítica XXI quer dar a conhecer a tradição intelectual das direitas e os seus desenvolvimentos actuais, olhando para valores, ideias e princípios com liberdade incondicional.

NÚMERO 16 . VERÃO 2026

Este número 16 da Crítica XXI, com que completamos o quarto ano de publicação da revista, abre com “Ulisses, o eterno assediado”, um ensaio de Jaime Nogueira Pinto sobre o clássico herói de Homero que, ao longo dos tempos, tem vindo a suportar todas, ou quase todas, as leituras. Leituras que nos esclarecem também sobre o tempo e o modo do leitor, como a do recente filme de Christopher Nolan, A Odisseia, que transforma o “homem dos muitos caminhos, ardis e ofícios” num ex-combatente traumatizado pelas guerras que travou e pela “ordem internacional” que quebrou.

Em “O Macaco de Darwin”, José Maria Cortes escreve sobre a deriva gnóstica moderna. Seguindo uma pista de Eric Voegelin, Cortes faz notar que os gnósticos contemporâneos procuraram imputar a entidades ou causas do nosso tempo as funções do maligno Demiurgo dos pais-fundadores da seita herética. Também outros gnósticos enveredam pela moderna desconfiança em relação ao corpo e as suas funções, vistos como inferiores ou desviantes, ou como algo que nos escraviza e “bestializa”, quais “macacos de Darwin”.

Pedro Lomba, em “Religião e Tecnologia nas distopias do século XX”, passa um olhar crítico pelos grandes autores de futurologia e ficção científica do século XX – Huxley, Orwell, Jünger, Bradbury, Herbert, Philip K. Dick – em que as “maravilhas da técnica” confrontam e tentam resolver ou dispensar o mistério da Religião. Um exercício importante, nestes tempos de Inteligência Artificial.

Eduardo Paz Barroso faz uma evocação da vida e obra de Paulo Tunhas (1960-2023), que intitula “Acreditar e duvidar com Paulo Tunhas – Crónica, política e filosofia”. O autor de O Coração do Assunto deixa aqui uma comparação crítica entre Tunhas e Vasco Pulido Valente, sublinhando a liberdade que têm em comum, bem como a convergência de muitos temas e referências. De certo modo, ambos se popularizaram precisamente por essa independência crítica, livre de tutelas ideológicas e partidárias. O que é, infelizmente, singular no tempo e no modo da análise política local.

Em “Alternativa à Europa”, Nuno Cardoso da Silva insiste na necessidade de Portugal e de os portugueses procurarem uma alternativa a uma confederação político-económica em crise como é a Comunidade Europeia que, para sair da crise que ela própria criou, foge cada vez mais para a frente. Como muitos da sua geração que viveram e defenderam o projecto do país intercontinental que o 25 de Abril e a sua deriva esquerdista comprometeram, Cardoso da Silva sugere o aprofundamento das relações com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, num triângulo Angola/Brasil/Portugal.

Alexandre Franco de Sá parte para uma análise actual da “crise da democracia” e respectivas instituições, num ensaio intitulado “O populismo e a crítica das instituições democráticas”. As crescentes denúncias do perigo de a “democracia liberal”, por derivas várias, se transformar em “democracia iliberal”, leva-o a analisar sucessivamente os “populismos” de esquerda e de direita. Pretendendo uma “tutela das ciências sociais como tutela da massa do povo e do seu senso comum, marcado sempre pelo conservadorismo de valores e princípios”, o populismo de esquerda legitima o alarme contra a onda de vitórias eleitorais da direita popular, vista como “iliberal”. Mas o conservadorismo popular – em formas de defesa da religião, da identidade nacional, da família tradicional – parece ser a resposta à democracia radical da Esquerda.

Carlos Maria Bobone formula uma pergunta – “Porque é que a Antiguidade ainda nos interessa?” É um tema perene da Filosofia e da História políticas, discussão de um “ponto de partida” sobre o que, simplificando, chamamos Direita e Esquerda. A Direita, considerando a continuidade da natureza humana e dos próprios princípios básicos de comunidade política; a Esquerda, admitindo a transformação individual e colectiva dos homens e das sociedades. Estes mesmos temas foram discutidos pelos autores gregos e romanos e retomados pelos clássicos que lhes sucederam, de Maquiavel a Kant. Por isso importam.

Continuando as suas reflexões, aqui na Crítica XXI, sobre a História contemporânea de Portugal, Rui Ramos trata da malograda revolta de 31 de Janeiro de 1891 em “O Verbo que encarnou mal – A revolta republicana do Porto, em Janeiro de 1891”. O Ultimato inglês de 1890 esteve na raiz dos primeiros êxitos do Partido Republicano Português, também porque os monárquicos “progressistas”, cujo governo caiu por causa da crise do Ultimato, apelaram discretamente ao voto nos republicanos contra os seus inimigos “regeneradores”.

O choque do Ultimato levou a uma radicalização entre os opositores, e o Porto centralizou essa oposição por via de um levantamento, inspirado por jornalistas republicanos, que acabou por ser um golpe militar localizado, de sargentos, com alguns episódios caricatos. Na manhã de 31 de Janeiro, os revoltosos, ao subirem pela rua de Santo António (hoje 31 de Janeiro), foram alvejados pela Guarda Municipal e fugiram ou renderam-se. A repressão não foi excessiva – 3 oficiais, 23 sargentos e uns 230 cabos e soldados. Dois anos depois, tirando os três oficiais, todos foram amnistiados.

As Notas Críticas incluem crónicas de Miguel Freitas da Costa sobre o filme “Batalha atrás de Batalha”, uma exaltação nostálgica da violência revolucionária na América e a crítica ao livro de Rémi Brague “O Reino do Homem”, por Jorge Costa Braga. Também, em “Setembro”, Miguel Freitas da Costa lembra os 25 anos do 11 de Setembro e o ataque macro-terrorista nos Estados Unidos. Numa nota final, Jaime Nogueira Pinto evoca Vítor Luís Rodrigues, um militante nacionalista que fez parte do núcleo fundacional do Futuro Presente e que morreu em Lisboa neste fim de Agosto de 2026.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS